quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Dois Voando.(sobre o sentido de ganhar e perder)

"Poucas coisas na vida são mais importantes do que aprender a perder. Perder um amor, um emprego, ir mal na prova, tomar um gol por baixo das pernas, dar com os burros n'água, com a cara no chão, ver a vaca ir pro brejo e, como diz o samba, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima.Não, o sofrimento não tem nenhum valor em si. Bom mesmo é amar e ser amado, tirar nota 10 na prova e na vida, ganhar 1 milhão por mês, ser campeão mundial de futebol, peteca ou beijo na boca e, na volta, desfilar em cima do carro de bombeiros sob os aplausos da nação. Mas, infelizmente, não é assim que as coisas funcionam. Muitas vezes você vai querer algo com todas as forças, fazer de tudo para consegui-lo e, na hora agá... xongas. E sabe o quê? Sou mais um fracasso pleno do que os sucessos vagos, os êxitos inúteis que vemos em jornais, revistas ou livros dos recordes. Fulano de Almeida, de Mossoró, RN, foi o homem que atirou mais longe uma carta de baralho: 46 metros. Sicrano de Souza, de São Paulo, ganha milhões fabricando o papelão do miolo do durex. Kelly Beltrana Shirley, de Pindamonhangaba, SP, abaixou as calças num show de rock e acabou com a bunda na Caras. Bravo! E daí? Mais vale um belo fracasso do que 10 desses sucessos de isopor.Quando eu tinha 6 anos, participei de um campeonato de futebol na minha escola. Como, já naquela época, minha presença bastava para desequilibrar o jogo, meu time ficou entre os últimos. No fim, recebemos uma medalinha em que estava escrito 'o importante é competir'.Lembro-me de que achei a frase estúpida. Se o importante não era ganhar, qual a razão do campeonato? A frase é um clichê e, como todo clichê, começou a fazer sentido quando fui ficando mais velho. A vida é muito curta para deixarmos de lutar pelo que a gente gosta em troca de meia dúzia de aplausos. O grande pecado é não nos atirarmos, com todas as forças, na direção que escolhemos. Pros diabos se as coisas vão dar certo ou não. Mais vale um pássaro na mão, é verdade, mas se tivermos dado o melhor de nós mesmos sem conseguir capturá-lo, o jeito é sentar numa sombra e ter a grandeza de aceitar, como parte da vida, os dois voando."
Antônio Prata

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